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Transtornos Alimentares

  • victorabiassio
  • 23 de jun. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 14 de jun. de 2024

Transtorno alimentar é uma condição na qual há alteração no consumo ou absorção de alimentos. Prejudica significativamente a saúde física e o funcionamento psicossocial (DSM-IV, 2002). É causado por um conjunto de predisposições genéticas, socioculturais e vulnerabilidades biopsicológicas. Sintomas comumente encontrados são: preocupação excessiva com o peso, distorção da imagem corporal e um medo patológico de engordar (SAIKALI et al., 2004).

O comportamento alimentar, afetado por esse transtorno, envolve um conjunto de ações que englobam desde a escolha até a ingestão de um alimento. É importante salientar que não existe alimentação exclusivamente nutritiva: os hábitos e práticas alimentares são construídos com base em determinações culturais (Serra, 2001).

Maçã com o símbolo de um coração

Sendo assim, a comida é indissociável de afeto. Inclusive, quando nos alimentamos, o circuito de recompensa presente no cérebro é ativado e ocorre a liberação de dopamina. Isso significa que enquanto comemos, nosso corpo promove reações neurofisiológicas que nos causam uma sensação de bem-estar. E isso é ainda mais impactante quando os alimentos ingeridos são ricos em gordura e carboidrato.

Essa questão é relevante porque estamos imersos em uma sociedade que valoriza e exige corpos cada vez mais magros. Como consequência, vemos que 98% das mulheres não se consideram bonitas (Serra, 2001) e que a incidência de Transtornos Alimentares praticamente dobrou entre a década de 80 e o início dos anos 2000 (Morgan, Vecchiatti e Negrão, 2002). Dessa forma, encontramos o seguinte cenário: o alimento está mais disponível devido aos avanços tecnológicos de produção e distribuição do mesmo. Alimentos calóricos provocam reações fisiológicas que geram o desejo de consumi-los novamente. No entanto, a sociedade atual impõe um padrão de beleza que preza por um corpo cada vez mais magro. Portanto, é natural que a nossa relação com a comida seja alterada e, em casos mais graves, gere distúrbios que afetem o comportamento alimentar.

Vale a pena ressaltar que uma alimentação saudável é importante para a saúde mental. Uma dieta composta por vegetais, frutas, legumes, cereais integrais e proteína magra tem fator protetivo contra depressão, ansiedade e TDAH (Jacka et al, 2017; Del-Ponte et al, 2019). Assim, é necessário impor limites ao desejo de ingerir alimentos processados e ricos em gordura e carboidrato. Contudo, não devemos demonizá-los. Afinal, o sentimento de culpa, com relação ao comer excessivo, manifesta-se diretamente nos diversos tipos de transtorno alimentar (Ehrenbrink, Pinto e Prando, 2009). Além disso, dietas de emagrecimento constituem fator precipitante mais frequente em transtornos alimentares. Pessoas que faziam dietas severas tiveram um risco 18 vezes maior de desenvolver esse tipo de transtorno, em uma pesquisa feita por Patton (1999). Na mesma pesquisa, pessoas que faziam dietas moderadas revelaram um risco 5 vezes maior. Isso porque a probabilidade de ocorrerem episódios de compulsão alimentar e pensamentos obsessivos sobre a comida é bem maior quando existe uma restrição alimentar (Morgan, Vecchiatti e Negrão, 2002).

Fita métrica ao redor de uma maçã verde

Outro ponto fundamental dessa condição é o de que episódios de hiperfagia (ingestão excessiva de alimentos, muito presente na bulimia e na compulsão alimentar) estão relacionados à liberação de opioides endógenos – um tipo de peptídeo sedativo que é produzido pelo corpo (Meyer, 2008). Assim, a comida pode ser utilizada como estratégia de controle emocional, na medida em que é abordada como instrumento sedativo para fugir do contato com emoções aversivas (Vale e Elias, 2011). Ou seja, o alimento passa a ser ingerido com a finalidade de obter prazer e compensar as dificuldades e traumas que o indivíduo possui em outras áreas da vida, tais como abuso sexual, separações, mudanças, doenças, perdas, entre outros (Morgan et al, 2002; Paxton, 1998; Fiates e Salles, 2001).

O papel do psicólogo é auxiliar o paciente a identificar o significado que a comida passou a ter e qual o lugar que ela ocupa em sua vida. Por que ela é tão aversiva? Por que é tão difícil conter os episódios de compulsão? Quais são as questões que são “compensadas” por meio da alimentação? Ademais, o psicólogo também realiza atividades que permitem que o sujeito tenha uma imagem corporal mais realista, diminuindo, assim, sua insatisfação corporal. Por fim, o terapeuta promove o desenvolvimento de habilidades sociais e ampliamento de fontes de reforçamento (Heller, 2002), a fim de que o cliente aprenda a lidar com os problemas dos quais tenta escapar mediante eventos hiperfágicos.

Por fim, é importante destacar que a forma mais eficaz de tratar essa condição é trabalhar com uma equipe multiprofissional. Além do psicólogo, é necessário realizar acompanhamento recorrente com profissionais da nutrição, psiquiatria, educação física e quaisquer outras áreas que se revelem necessárias.

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REFERÊNCIAS:


Del-Ponte B, Quinte GC, Cruz S, Grellert M, Santos IS. Dietary patterns and attention deficit/hyperactivity disorder (ADHD): A systematic review and meta analysis. J Affect Disord. 2019 Jun 1; 252:160-173. doi: 10.1016/j.jad.2019.04.061. Epub 2019 Apr 10. PMID: 30986731.


DSM-IV (2002). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed.


Ehrenbrink, Petra Paim, Pinto, Elzimar E. Peixoto, & Prando, Fernanda Loureiro. (2009). Um novo olhar sobre a cirurgia bariátrica e os transtornos alimentares. Psicologia Hospitalar, 7(1), 88-105. Recuperado em 22 de junho de 2023, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-74092009000100006&lng=pt&tlng=pt.


Fiates, GMR & Salles, RK. (2001). Fatores de risco para o desenvolvimento de distúrbios alimentares: um estudo em universitárias. Revista de Nutrição, 14, 3-6.


Jacka FN, O'Neil A, Opie R, Itsiopoulos C, Cotton S, Mohebbi M, Castle D, Dash S, Mihalopoulos C, Chatterton ML, Brazionis L, Dean OM, Hodge AM, Berk M. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the 'SMILES' trial). BMC Med. 2017 Jan 30;15(1):23. doi: 10.1186/s12916-017-0791-y. Erratum in: BMC Med. 2018 Dec 28;16(1):236. PMID: 28137247; PMCID: PMC5282719.


Meyer, Sonia Beatriz. (2008). Functional Analysis of Eating Disorders. Journal of Behavior Analysis in Health, Sports, Fitness and Medicine, 1(1), 26-33.


Morgan, C. M., Vecchiatti, I. R. & Negrão, A. B. (2002). Etiologia dos transtornos alimentares: Aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais. Revista Brasileira de Psiquiatria, 24(3), 18-23.


Patton, G.C. et al. (1999) Onset of adolescent eating disorders: population based cohort study over 3 years. BMJ. Parkville Victoria, v. 318, no. 7186, p. 765-768.


Paxton, S.J. (1998). Current issues in eating disorders research. Journal of Psychosomatic Research, 44(34), 297- 299.


Saikali, C. J., Soubhia, C. S., Scalfaro, B. M., & Cordás, T. A.. (2004). Imagem corporal nos transtornos alimentares. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo), 31(4), 164–166. https://doi.org/10.1590/S0101-60832004000400006


Serra, G. M. A. (2001). Saúde e nutrição na adolescência: O discurso sobre dietas na Revista Capricho. Dissertação de Mestrado não publicada. Escola Nacional de Saúde Pública. Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, RJ.


Vale, A. M. O. & Elias, L. R. (2011). Transtornos alimentares: uma perspectiva analítico-comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 13(1), 52-70.

 
 
 

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