Luta Antimanicomial
- victorabiassio
- 24 de mar. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 4 de jun. de 2024
Trago esse tema porque ele lida com uma preocupação que muitas vezes encontrei na clínica: pacientes demoram para buscar atendimento por temerem que serão rapidamente encaminhados para um manicômio, onde serão eternamente confinados e sofrerão com tratamentos baseados em banhos gelados e frequentes choques elétricos. Felizmente, posso lhe dizer que esse não é mais o modo com o qual o Brasil organiza o atendimento de pessoas que possuem algum tipo de transtorno mental. Se você quer saber mais sobre o tratamento atual, me acompanhe nos próximos parágrafos.
Na foto dessa postagem está o Museu da Loucura, localizado em Barbacena – MG. Ele mostra como era a vida dentro do antigo Hospital Colônia de Barbacena: as pessoas internadas ali não participavam de atividades que buscavam promover sua saúde mental. Eram apenas enclausuradas, sofrendo com o frio noturno, eletrochoques, lobotomias, fome, completa falta de higiene e falta de leitos. Essas tristes condições não serão detalhadas aqui, mas estão extensamente descritas no livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex.
Conto a história dessa instituição porque ela exemplifica a situação de todo o Brasil. As condições cruéis as quais os internos de manicômios eram expostos fez com que surgisse no final da década de 70 o movimento antimanicomial. Ele consiste na luta pela reorganização do sistema de saúde, visando tratar pessoas que sofrem com distúrbios mentais e reinseri-las na sociedade. O movimento foi crescendo e, no final da década de 80, o antigo Hospital Colônia de Barbacena foi, finalmente, desativado.
É graças à luta antimanicomial que existe a Lei 10.216, desde 2001. Ela assegura uma série de direitos ao portador de transtornos mentais, como o de ser tratado com respeito, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; ser protegido de qualquer forma de abuso e exploração; ter livre acesso à meios de comunicação; ter esclarecida a necessidade ou não de sua internação; ser tratado pelos meios menos invasivos possíveis; entre outros. Também é importante ressaltar que a lei prioriza os serviços terapêuticos presentes na comunidade. Isto é, a legislação indica que a internação não deve ser a primeira alternativa utilizada no tratamento de transtornos mentais.
O local prioritário de atendimento instituído em nosso sistema de saúde é o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Segundo o Ministério da Saúde, nesses centros, equipes multiprofissionais realizam diferentes intervenções e estratégias de acolhimento, como psicoterapia, seguimento clínico em psiquiatria, terapia ocupacional, reabilitação neuropsicológica, oficinas terapêuticas, medicação assistida, atendimentos familiares e domiciliares, entre outros. É importante salientar que são unidades assistenciais que contém leitos para repousos eventuais, de modo que o paciente é tratado sem ser internado.
Portanto, apesar de internações involuntárias terem sido prática corriqueira e recorrente há décadas atrás, não é preciso mais temê-las. A internação é realizada apenas em casos mais graves e depois de se observar que outras formas de tratamento não surtiram o efeito desejado. E mesmo que ela ocorra, os direitos dos internos estão garantidos pela legislação brasileira. Dessa forma, não deixe de buscar atendimento psicológico por medo de uma internação precária. Como brevemente explicitei nesse texto, esse tipo de tratamento já foi substituído por práticas mais efetivas e humanizadas. Então não se acanhe: se você precisa de auxílio psicológico, agende um horário comigo e comece uma psicoterapia acolhedora e baseada em evidências.
Até breve!
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